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“Doutora, com o Ozempic e o Mounjaro, ainda vale a pena fazer cirurgia bariátrica?” Essa é, hoje, uma das perguntas mais frequentes no consultório. As canetas emagrecedoras — semaglutida (Ozempic, Wegovy) e tirzepatida (Mounjaro) — revolucionaram o tratamento da obesidade e, nos estudos clínicos, mostraram perda de peso impressionante. Mas o que acontece na vida real, fora do ambiente controlado das pesquisas?
Um estudo publicado em 2026 na revista Obesity, da The Obesity Society, trouxe uma resposta direta: pesquisadores da NYU Langone Health e do sistema público NYC Health+Hospitals compararam, lado a lado, mais de 44 mil pacientes tratados com cirurgia bariátrica ou com essas medicações. O resultado surpreendeu até os especialistas — e é sobre ele que falo neste artigo.
O que o novo estudo comparou
O estudo Real-World Effectiveness of Semaglutide and Tirzepatide Compared With Bariatric Surgery (Brown e colaboradores, 2026) analisou dados de dois grandes sistemas de saúde de Nova York, entre 2018 e 2024, incluindo apenas adultos com IMC igual ou superior a 35 — ou seja, pacientes que eram candidatos tanto à cirurgia quanto ao tratamento medicamentoso.
Foram avaliados 44.025 pacientes, divididos em quatro grupos:
- Semaglutida injetável (Ozempic/Wegovy): 25.804 pacientes
- Tirzepatida (Mounjaro): 7.308 pacientes
- Gastrectomia vertical (sleeve): 8.728 pacientes
- Bypass gástrico em Y de Roux: 2.185 pacientes
Os pesquisadores acompanharam o percentual de perda de peso total (%TWL) por até 3 anos, usando métodos estatísticos robustos (ponderação por probabilidade inversa) para equilibrar diferenças de idade, sexo, IMC inicial e doenças associadas entre os grupos.
Cirurgia bariátrica vence na perda de peso: os números
A cirurgia foi associada a uma perda de peso substancialmente maior que os medicamentos em todos os momentos avaliados — 1, 2 e 3 anos após o tratamento. Veja a perda de peso total média na análise ponderada:
| Tratamento | 1 ano | 2 anos | 3 anos |
| Bypass gástrico | 29,8% | 28,1% | 28,4% |
| Gastrectomia vertical (sleeve) | 24,4% | 22,4% | 22,0% |
| Tirzepatida (Mounjaro) | 9,1% | 10,8% | — |
| Semaglutida (Ozempic/Wegovy) | 5,4% | 6,5% | 7,4% |
Na prática: um paciente de 120 kg perderia, em média, cerca de 34 a 36 kg com o bypass gástrico, 26 a 29 kg com o sleeve, cerca de 11 a 13 kg com a tirzepatida — e apenas 6 a 9 kg com a semaglutida.
E quando os pesquisadores restringiram a análise apenas aos pacientes que mantiveram o medicamento continuamente por pelo menos 1 ano, os resultados melhoraram, mas continuaram muito distantes da cirurgia: 7,2% a 8,8% com semaglutida e 11,7% a 11,9% com tirzepatida.
Outro achado importante: a perda de peso após a cirurgia se mostrou sustentada ao longo dos 3 anos, com o bypass gástrico apresentando menos reganho de peso após o segundo ano do que o sleeve.
Sleeve ou bypass: qual cirurgia perdeu mais peso no estudo?
Entre as duas técnicas de cirurgia bariátrica avaliadas, o bypass gástrico em Y de Roux apresentou os melhores resultados: 29,8% de perda de peso total em 1 ano, mantendo 28,4% ao final de 3 anos — ou seja, praticamente sem reganho relevante. A gastrectomia vertical (sleeve), técnica mais realizada no estudo (80% das cirurgias), alcançou 24,4% em 1 ano e 22,0% em 3 anos.
Esse padrão confirma o que a literatura cirúrgica já vinha mostrando: o bypass tende a produzir perda de peso um pouco maior e com menos reganho após o segundo ano do que o sleeve. Na prática clínica, porém, a escolha da técnica não se baseia apenas nesses percentuais — fatores como refluxo gastroesofágico, diabetes, uso crônico de medicações e o histórico de cada paciente pesam na decisão, que deve ser individualizada com o cirurgião.
Vale registrar também o perfil dos pacientes operados: a maioria era mais jovem que os usuários de medicação, com IMC inicial mediano de 43, e 70% eram mulheres — retrato muito semelhante ao que vemos nos consultórios de cirurgia bariátrica no Brasil.
Por que as canetas emagrecem menos na vida real
Nos ensaios clínicos que aprovaram esses medicamentos, os resultados foram bem superiores: 14,9% de perda de peso em 1 ano com semaglutida (estudo STEP) e 15% a 20,9% com tirzepatida (estudo SURMOUNT-1). Por que a diferença tão grande para a vida real? O estudo aponta três explicações principais:
1. Abandono precoce do tratamento. O estudo detalhou, mês a mês, o que acontece com quem inicia as canetas — e os números impressionam. A cada nova prescrição mensal, uma parcela dos pacientes abandonava o tratamento: 21,1% já haviam parado na segunda prescrição, 33,9% na terceira, 42,2% na quarta, 48,7% na quinta e 54,3% na sexta. Ou seja, ao final de aproximadamente seis meses, mais da metade dos pacientes não estava mais usando a medicação.
A taxa de abandono foi maior com a semaglutida do que com a tirzepatida. E a progressão de dose também ficou muito aquém do ideal: na sexta prescrição, apenas 5,3% dos usuários de semaglutida e 2,8% dos de tirzepatida haviam alcançado a dose máxima de cada medicamento — enquanto nos ensaios clínicos os pacientes eram titulados até a dose plena em 4 a 5 meses.
2. Doses abaixo do ideal. Apenas 13,4% dos pacientes atingiram a dose máxima do medicamento em 1 ano. Como a intensidade da dose está diretamente ligada à perda de peso, doses insuficientes significam resultados menores.
3. Menos acompanhamento multidisciplinar. Os centros de pesquisa oferecem consultas frequentes, orientação nutricional e manejo ativo de efeitos colaterais — suporte que muitas vezes não se reproduz no dia a dia.
Importante: mesmo entre os pacientes que mantiveram o medicamento por 1 ano contínuo, a perda de peso média foi de apenas 8,85% em 3 anos. Ou seja, a descontinuação não explica sozinha a diferença em relação aos ensaios clínicos — nem em relação à cirurgia.
Cirurgia bariátrica e canetas em pacientes com diabetes
O estudo também avaliou separadamente os pacientes com diabetes tipo 2 — grupo que, sabidamente, perde menos peso com qualquer tratamento. Os resultados mantiveram o mesmo padrão:
- Cirurgia: 23,5% de perda de peso em 1 ano e 21,0% em 3 anos
- Canetas (GLP-1): 4,6% em 1 ano e 6,0% em 2 anos
Já na redução da hemoglobina glicada (HbA1c), os dois tratamentos tiveram desempenho comparável, com reduções discretamente maiores (sem significância estatística) nos grupos de medicação — a semaglutida foi associada a queda de cerca de 1,0 ponto percentual em 3 anos. Os autores ressalvam, porém, que a durabilidade desse controle glicêmico é incerta diante das altas taxas de abandono do medicamento.
O que este estudo acrescenta em relação às pesquisas anteriores
Comparações diretas entre cirurgia bariátrica e medicamentos análogos de GLP-1 não são novidade — mas os estudos anteriores tinham limitações importantes. A maioria se restringia a subgrupos específicos de pacientes, como portadores de doença renal crônica ou de diabetes tipo 2, e muitos incluíam medicações mais antigas e menos potentes, como liraglutida e dulaglutida, que já não são as mais utilizadas.
O diferencial deste novo estudo está em três pontos: o tamanho da amostra (44.025 pacientes elegíveis para os dois tratamentos), o seguimento de 3 anos e o foco exclusivo em semaglutida e tirzepatida — exatamente as medicações que dominam o tratamento da obesidade hoje. Além disso, a população estudada foi bastante diversa, combinando um sistema de saúde público e um privado da região metropolitana de Nova York, com forte presença de minorias étnicas e pacientes de baixa renda, o que os próprios autores destacam como um ponto forte do banco de dados.
Outro aspecto interessante: enquanto 98,6% dos pacientes em uso de canetas estavam no sistema privado, 65,6% das cirurgias bariátricas foram realizadas no sistema público — um retrato de como o custo e a cobertura dos planos influenciam o acesso a cada tratamento, realidade que também conhecemos bem no Brasil.
Limitações do estudo
Como todo estudo retrospectivo, este também tem limitações que merecem ser mencionadas com transparência:
- Por não ser um estudo randomizado, pode haver fatores de confusão não medidos, apesar do ajuste estatístico rigoroso;
- As prescrições foram usadas como aproximação do uso real — nem todo paciente retira e aplica a medicação prescrita;
- Os resultados valem para pacientes com IMC ≥ 35; não podem ser generalizados para pessoas com IMC menor que usam essas medicações;
- Parte dos pacientes teve seguimento incompleto por transitar entre diferentes serviços de saúde.
Um ponto forte, por outro lado, é a diversidade da população estudada, incluindo pacientes de sistema público e privado — o que aproxima os achados da realidade dos consultórios.
Cirurgia bariátrica ou medicamento: como decidir
Esse estudo não diz que as canetas emagrecedoras são ruins — elas são uma ferramenta valiosa e vieram para ficar. O que ele demonstra, com dados robustos de mais de 44 mil pacientes, é que para quem tem obesidade com IMC ≥ 35, a cirurgia continua sendo o tratamento mais eficaz e duradouro para perda de peso na vida real, como concluem os próprios autores.
A decisão entre cirurgia, medicação ou a combinação de ambos é individual e deve considerar o grau de obesidade, as doenças associadas (diabetes, hipertensão, apneia do sono, esteatose hepática), o custo e a capacidade de manter o tratamento a longo prazo, além das preferências de cada paciente.
Se você tem dúvidas sobre qual caminho é o mais adequado para o seu caso, agende uma consulta de avaliação — será um prazer construir esse plano com você. Conheça também mais sobre a cirurgia bariátrica e os tratamentos para obesidade que ofereço.
Perguntas frequentes
Referência: Brown A, Patel SS, Kozato A, et al. Real-World Effectiveness of Semaglutide and Tirzepatide Compared With Bariatric Surgery. Obesity. 2026. DOI: 10.1002/oby.70246